Pausa para respirar: envelhecer não é uma rendição à fragilidade, é um convite para calibrar a relação entre benefício terapêutico e risco de efeitos adversos. Quando a saúde mental e a qualidade de vida caminham juntas, o ambiente de trabalho absorve esse equilíbrio sem perder produtividade. A matéria de hoje revisita os Critérios de Beers, uma das diretrizes mais respeitadas para orientar prescrições seguras para idosos, criada pela Sociedade Americana de Geriatria em 1991. Em 2023, a lista passou por atualizações que destacam o que deve ser evitado, o que merece cautela e o que precisa de monitoramento cuidadoso. O objetivo, vale repetir, não é banir remédios, mas alertar sobre Medicamentos Potencialmente Inapropriados (MPIs), cujos riscos superam os benefícios.
O objetivo não é proibir o uso de remédios, mas alertar sobre Medicamentos Potencialmente Inapropriados (MPIs), cujos riscos superam os benefícios.
Entre as categorias de maior preocupação, destacam-se: medicamentos que devem ser evitados em termos gerais — como anti-histamínicos de primeira geração (hidroxizina, dexclorfeniramina), que elevam confusão mental, boca seca, retenção urinária e quedas; anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) como diclofenaco e ibuprofeno, com risco aumentado de sangramento gastrointestinal; benzodiazepínicos (diazepam, alprazolam), ligados a quedas, sedação excessiva e delirium; e sulfonilureias de longa duração (glibenclamida), associadas a hipoglicemias graves.
Há também recomendações específicas para condições clínicas: insuficiência cardíaca, quedas prévias e comprometimento cognitivo são situações em que o médico avalia interações entre fármacos e comorbidades para evitar piora de sintomas. Além disso, o uso de aspirina de forma preventiva em idosos, especialmente para prevenção primária, é pauta de cautela por possível aumento do risco de sangramento.
A polifarmácia — uso de cinco ou mais medicamentos — aparece com frequência associada aos MPIs da Beers, dificultando a adesão a terapias de reabilitação e prejudicando o equilíbrio entre ganho funcional e segurança clínica. Em 2025, a Sociedade Americana de Geriatria disponibilizou uma Lista de Alternativas aos Critérios de Beers, com foco no que pode ser prescrito em vez de simplesmente restringir opções. As sugestões cobrem insônia, ansiedade, dor crônica e sintomas urinários, oferecendo caminhos que preservam a função sem expor o idoso a riscos cognitivos ou hemodinâmicos indesejados.
Para insônia, as alternativas vão desde higiene do sono e terapias não farmacológicas até abordagens farmacológicas de baixo risco, como melatonina em doses moderadas ou agonistas de melatonina (ramelteona).
Para ansiedade, opções com menor dependência e efeitos colaterais incluem inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS), como sertralina ou escitalopram, que demoram algumas semanas para efeito, associados a psicoterapia e técnicas de relaxamento como complementos não farmacológicos.
Para dor crônica (artrite/artrose), a lista recomenda paracetamol como primeira linha para dores leves a moderadas; formulações tópicas com diclofenaco ou lidocaína apresentam absorção sanguínea mínima, protegendo rins e estômago; fisioterapia assistida e exercícios de baixo impacto completam o manejo.
No âmbito de sintomas urinários (bexiga hiperativa), a mirabegrona oferece controle da urgência sem comprometer a função cognitiva, evitando o uso de anticolinérgicos que podem acelerar o declínio.
As diretrizes reforçam que a desprescrição — a retirada de fármacos desnecessários — pode ser uma ferramenta poderosa para otimizar a reabilitação, manter a autonomia e preservar a qualidade de vida, sem abrir mão da produtividade.”
Em termos de prática, empresas e equipes de saúde ocupacional podem considerar, de forma gradual e monitorada, a incorporação de revisões de medicação pós-alta hospitalar, com participação de farmacêuticos clínicos, avaliação de quedas, monitoramento de níveis cognitivos e métricas de desempenho funcional nos colaboradores idosos. Treinamentos para gestores sobre comunicação de riscos, políticas de cuidado integrado e desprescrição segura ajudam a alinhar saúde e desempenho no ambiente corporativo, contribuindo para uma cultura de bem-estar sustentável em 2026.
A implementação de pilotos com metas claras e prazos de avaliação pode revelar ganhos reais: menos internações por eventos adversos, maior adesão a programas de reabilitação e, consequentemente, melhor aproveitamento de recursos humanos. O movimento é simples na ideia e profundo no impacto: cuidar da mente e do corpo não é inimigo da produtividade, é parte da prosperidade organizacional.
🔍 Perspectiva baseada na notícia: Confira se seus medicamentos fazem parte dos Critérios de Beers
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